quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Mesmo não sendo mãe de um surdo

Eu não sou mãe. O mais próximo que chego disso é ter um labrador criado dentro de casa, chamado de bebê, que escolhe onde vai dormir toda noite. Eu nunca engravidei, nunca passei nove meses sabendo o que é ter uma outra vida dentro de mim. Nunca abri mão de mim por uma criança, nunca deixei de sair pra amamentar. E eu não sou mãe de um filho surdo, nunca tive que decidir qual seria o melhor caminho pra ele. Nunca senti o vazio de ouvir um diagnóstico preciso e não ter a menor noção do que fazer dali em diante. 
Por tudo isso, eu assumo não ser a pessoa mais indicada pra fazer essa reflexão. No entanto, mesmo nunca tendo sentido na pele, já senti diversas vezes no coração. Quando um adolescente tem como maior sonho poder chegar em casa e contar pra família como foi seu dia na escola, ou aquele olhar carregado de vontade de fazer parte de algo por inteiro pela primeira vez. Ou as tantas vidas que se encontram e se tornam família mesmo já tendo uma dentro de casa.                         
Eu compreendo que querer que seu filho seja como a maioria, é uma forma de amá-lo, de tentar evitar que ele seja rejeitado e humilhado. E optar pela oralização é uma tentativa de encaixá-lo no tido como normal. Mas por que ele é que deve se encaixar? Cresci observando as relações e comportamentos, e sempre quem se molda ao filho são os pais, a família, a escola. Por que com os surdos é diferente, por que desde que nascem eles é que são cobrados a ser como os outros mesmo que aquilo não seja natural e nem produtivo pra eles?                         
Querer o melhor pro filho não seria antes conhecer de fato todos os caminhos e só então decidir? Desculpa pelo que vou dizer: os médicos já têm um discurso normalizador pronto pra te ganhar, eles sabem o que os pais querem ouvir, que coincidentemente é o que dá mais dinheiro a eles. Eles te convencem de que seu filho só será alguém se ele ouvir e falar uma língua oral. Mas a verdade é que ele nunca será alguém se você não permitir que ele seja. Ele poderá optar pelo uso de aparelhos auditivos, mas quando ele mesmo tiver consciência para fazê-lo. Mas anterior a isso deve vir a língua de sinais que é o que tornará possível essa consciência e todas as outras. Se convencer de que o melhor pro filho é força-lo a algo que o atrasa e não o impulsiona, é decidir o melhor pra você e não pra ele.

2 comentários:

  1. Adorei! Eu sou colunista no Eu Sem Fronteiras e recentemente tenho debatido muito sobre os Surdos. Dias atrás fiz uma reflexão em relação à importância de uma educação bilíngue para o Surdo. A primordialidade da Língua de Sinais desde à tenra idade para o desenvolvimento subjetivo do sujeito Surdo, enfim, trouxe a análise sobre a inclusão propriamente dita dentro da nossa sociedade e porque é que os Surdos não podem ter os mesmos direitos dos ouvintes.

    Parabéns, admiro muito o seu trabalho e o canal no youtube. Sou fã.

    Um beijo e um abraço apertado,

    com carinho,

    Jéssica Sojo.

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    1. Parabéns pelo seu trabalho, Jéssica, precisamos mesmo de mais e mais pessoas divulgando o assunto e quebrando os tabus que existem sobre a comunidade surda. Obrigada pelo carinho <3

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